Velhice

O mais velho deles ficara ali, sozinho naquele mundo horrendo. Ficara lembrando em tudo que já amara, em tudo que já sofrera. Ficara ali, afundando no tempo, passando a mão em suas próprias rugas, já que não tinha rugas femininas em sua vida. Ficou ali, aguando suas rugas com água salgada.
A vida o traíra. Nunca soubera o verdadeiro sentido das coisas. O fracasso lhe subira a cabeça, não havia mais volta, agora era só esperar pelos dias de descanso eterno, descanso este que tinha medo. Muito medo.
Não queria ser consumido por ratos e baratas. Não queria estar preso em moldes. Não queria virar ossada.
Até sua sombra havia mudado, estava corcunda, igual a ele. Estava menor. Estava velha. Teve a certeza que objetos inanimados também têm seu prazo de validade.
Seus amigos de asilo chegaram. Fim de reflexão. Era hora de se misturar a novas histórias e sofrimentos alheios que haviam chegado.
Qualquer lugar

A calmaria o alcançara desta vez. O toque suave do violão, de repente, o fizera visualizar o mar, os pássaros e a vida de outro ângulo. A voz, de tão perfeita que era, o fez ouvir. Era surdo. Ouvira. O fizera lembrar-se de seu grande amor. Um amor que não lhe amara. Um amor infinito. Fim de música. A próxima o fizera lembrar-se de qualquer lugar. Um lugar além daquele mar que ele visualizara antes. Avistara, também, um banco, uma lareira e suor humano. Avistara amores e colchões. Buscara mais a fundo na sua imaginação, mas não avistara mais nada. Talvez fosse apenas aquilo que ele quisesse no momento: nada mais que amor, banco, colchões, lareira, mar, calor humano e qualquer lugar onde o sol não possa mais queimar seus novos desejos.
Lembranças quase confidenciais

Eis que um dia o Carlo indica-me ele,
Caio Fernando Abreu
Como Caio entrou em sua vida?
Meu amigo virtual me indicou.
Confissões
6 ago
Confesso que eu nunca poderia imaginar que dezoito anos fariam alguém se sentir tão velho. Estou me sentindo velhíssimo. E o que tenho feito de minha vida nesses dezoito anos? Velhice é experiência? Alguns dizem que sim, eu, pessoalmente acho que não. Velhice é apenas sinal de rugas, dias, horas e anos. Uma pessoa com dez anos de idade pode sim ser muito mais experiente que uma pessoa de vinte.
7 ago
Confesso que estou com vontade de ir embora. Estou trabalhando até agora. Trabalho uma lan house. O povo parece não desconfiar que estou morrendo de sono. Não quero ser chato, mas vou ter que dizer a eles que irei fechá-la.
7 ago
Confesso, também, que estou preocupado com um amigo meu. Conheço-o apenas por internet, mas o estou sentindo muito triste ultimamente. Não gosto de saber que ele está mal. Ele é muito especial pra mim. Gostaria de agradecer a ele por me ensinar o que é uma amizade virtual, espero que daqui a algum tempo essa amizade não seja apenas virtual. Espero poder lhe abraçar e lhe dizer o quanto é especial pra mim.
8 ago
Confesso que fiquei indignado quando li que o Sarney está livre de todas as suas acusações.
9 ago
Confesso que o Dia dos Pais pra mim é meio vazio. Faz sete anos que eu não sei o que é um abraço de pai. Sinto falta, muita falta. Sinto falta dos danoninhos de manhã, dos chocolates à tarde, do andar de bicicleta, das voltinhas de carro pela cidade, das idas à sorveteria, das defesas contra o mundo, dos pés de feijões, e de sua pança. Ele parecia do Senhor Barriga, do Chaves (risos). É, o tempo não volta. Mas, lhe desejo um ótimo Dia dos Pais, pai, onde você estiver. Te amo muito!
9 ago
Confesso que, ultimamente, ando perdendo o que ainda não encontrei.
10 ago
Confesso que apenas existo. O que é viver?
13 ago
Confesso que este é o melhor tópico do orkut.
13 ago
Confesso que estou trêmulo, falta-me o ar, minhas mãos estão suando, estou muito feliz. Há muito tempo não me sentia assim.
É impressionante como pequenos atos de uma pessoa que amamos nos deixam tão vivos.
14 ago
Confesso que dois anos não foi o suficiente para apagar o que vivi em três meses.
14 ago
Confesso que a última gota de esperança que eu tinha se foi, completamente.
15 ago
Confesso que estou agitado. Não sei o que está acontecendo, mas parece que as palavras que guardo dentro de mim estão querendo sair. Posso eu me declarar? Não seria muito ridículo? Apenas sei que todas as cartas foram escritas em vão.
16 ago
Confesso que, ultimamente, tudo está me irritando.
20 ago
Confesso que já não sei mais o que fazer, quando penso que finalmente encontrei o que eu queria, que havia chegado ao ponto desejado, que estava na estrada certa, me deparo com dúvidas, frustrações e decepções. Não sei mais como viver assim.
21 ago
Confesso um vazio.
22 ago
Confesso que Aurora está tão triste quanto eu. Já não sinto toda a magia no despertar do dia.
23 ago
Confesso que o tempo está lançando lanças de fogo em meu coração. Está queimando-o. Tornando-o menor e insuficiente para levar sangue para todas minhas veias.
Ouço uma banda que se chama Abril, ela tem um CD cujo nome é "O que te faz feliz?". Esse título me deixa triste. Por que a pessoa que indiretamente me faz triste e feliz, nem se quer me dá uma chance de demonstrar o quanto almejo fazer alguém sorrir?
23 ago
Confesso que postei minhas confissões no meu Blog. Seria isso uma forma de recordação?
Fim de março

Não quero mais ser uma gema, viver dentro de uma casca e poder, a qualquer momento, dissipar-me e espalhar-me pelo chão. Acho que acostumei com minha vida como ela. é É tão monótona, mas ao mesmo tempo é tão bom saber o que eu farei e o que me espera durante toda uma jornada... – Refletiu.
Neste, momento, uma xícara de chá, transbordando e fervendo, cai sobre sua calça. Xingou. Desvairou-se. Brigou. Descontou no garçom, que ali se encontrava, toda a sua revolta contra o mundo.
- Por que você encheu isso desse jeito? Você é louco?
Calou-se, um silêncio ardente se fez naquele restaurante. Todos o olhavam. Olhavam seus olhos famintos e furiosos, teu semblante sofrido e quente, suas mãos trêmulas e sua calça molhada. Olhavam e escutavam, também, o silêncio que o garçom produzira. Todos olhavam, espantadíssimos.
Depois de brigar, saiu. Brigou com as nuvens, elas sumiram. Brigou com o sol, fez-se uma sombra infernal. Brigou com o chão, ficou sem uma base. Brigou consigo mesmo, afundou cada vez mais.
Avistou uma loja de roupas velhas. Sentiu-se igual a elas: velho, ferido e sem valor. Nunca mais poderia ficar novo e útil. Sua honra de homem estava para sempre perdida.
Encontrou-se perdido pelo pescoço. Encontrou-se flutuando, com seus pés fora do chão.
Diferenças

Virou-se com medo do mundo. Com suas próprias mãos fez seu veículo se locomover. Não era capaz de andar com as próprias pernas. Os “amigos” de escola só o zombavam, tiravam sarro de suas pernas tortas e insuficientes. Não fora a primeira vez que passara por isso, era uma situação comum, tão comum como ver a Aurora nas manhãs de segunda-feira. Via-os sempre o olhando de lado e cochichando, como se estivessem “preocupados” com alguma coisa. Ele não tinha liberdade de expressão nenhuma, alguns pensavam que sua incapacidade de andar afetaria seu cérebro. Riam, zombavam, depenavam, mas havia uma garota - a Nerd da classe – que o tratava bem. Talvez fosse porque tinha uma visão melhor do assunto. Entendia que o fato da deficiência física não alterava em mais nada. Entendia, também, que uma pessoa com deficiência física talvez fosse até mais eficiente que uma pessoa com todos os membros perfeitos, pois usava o que lhe era perfeito, para desenvolvê-lo em outras atividades. Ele, por exemplo, era capaz de “correr com as mãos”, fazia o que quase ninguém poderia fazer em uma cadeira de rodas. Um dia desses, até havia ganhado uma medalha de ouro nas pára-olimpíadas de uma cidade vizinha. Apesar de todas as dificuldades, o jovem rapaz, tinha um sonho: ser o prefeito de sua cidade. Ele acreditava que seria o melhor prefeito de todos os tempos. Tinha o sonho de viver em prol da sua cidade. Ele, também, queria melhorar a situação das escolas: colocar rampas para os deficientes (uma vez que não era só ele de deficiente na pequena cidade), realizar campanhas para informar para os habitantes, que ali viviam, que, deficientes físicos ou mentais, são pessoas normais, pois também são diferentes e a diferença é e sempre foi a essência do mundo, e os isolados socialmente não merecem ser tratados assim, todos nós somos diferentes um do outro, nenhum ser humano é idêntico ao outro, nem mesmo os gêmeos univitelinos (seja por uma pinta ou uma mancha). Não está na hora de enxergarmos as diferenças como uma normalidade, não? Por que os deficientes são considerados anormais, e os demais normais? Será que os números comandam o mundo? Ou será a estética? Eu, pessoalmente, gostaria que fosse a competência. Já que não posso mudar o mundo, terei que continuar assistindo a beleza padrão e o poder dominarem o mundo e esmagarem os mais fracos. E o pior: terei de ficar rindo disso tudo, descontroladamente, para não ser a próxima vítima da tão malvada sociedade.
O peso do mundo

- Não! – Disse ela, impacientemente.
- Por que não? – Perguntou o homem , quase aos prantos.
- Porque, porque...
- Por que você um dia disse me amar?
- Porque eu quis. E outra, quando eu quis você não quis. Então o problema não é meu.
- Mas é que eu descobri algo novo. Tudo que eu tenho feito, ultimamente, foi pensando em você. Não sei por que, mas tenho pensado muito naqueles dias que tinha a chance de olhar tudo a minha volta ao seu lado. É estranho. Não sei como tudo pode mudar assim, tão depressa.
- Agora é tarde.
- Tarde por quê?
- Porque sim. Olha, eu estou com outra pessoa. Encontrei alguém que me dê o valor necessário. E outra, eu não gosto de você, e pensando bem, acho que nunca gostei.
Isso foi o bastante para homem sair dali totalmente cabisbaixo. Não era acostumado com as punhaladas da vida, embora já ganhasse várias. Havia milhares de cicatrizes em suas costas, e, ali, bem no centro, na espinha dorsal, havia uma ferida recente, que estava doendo muito, sangrava bastante e o sangue não coagulava mais, naquele momento parecia, também, que o mundo havia desabado bem na sua ferida. Ele já não estava suportando toda aquela dor e o peso do mundo em suas costas.
Custava a caminhar, o mundo estava muito pesado, sua nova ferida doía muito, mas não conseguiu atingir seus olhos. Avistou uma praça cheia de crianças. Resolveu se aproximar. Todas aquelas crianças pareciam estar muito felizes. Todas riam. Mas, elas riam de que e pra quem? Por que todos riam e ele não? Por que o mundo sempre fora tão cruel com aquele homem? Com tudo que acontecera, ele foi ficando mais frágil. Foi decaindo. Desde então passou a não se auto respeitar. Perdeu a melhor coisa que alguém pode ter: o respeito a si próprio.
Mas foi vivendo, carregando sempre nas costas uma nova ferida e infinitas cicatrizes em suas costas. Viveu até o dia que pôde mais suportar o peso do mundo em suas horrendas feridas.

