Esteban Tavares


Letra e música para os meus ouvidos.

Velhice


O asilo estava velho. A vida também. O asilo estava vazio. A vida mais ainda. Os velhinhos haviam saído para um passeio no parque, um passeio onde desviavam todos seus receios do mundo, onde conversavam com as árvores e esqueciam-se de suas rugas. Rejuvenesciam. Lambiam juventude.

O mais velho deles ficara ali, sozinho naquele mundo horrendo. Ficara lembrando em tudo que já amara, em tudo que já sofrera. Ficara ali, afundando no tempo, passando a mão em suas próprias rugas, já que não tinha rugas femininas em sua vida. Ficou ali, aguando suas rugas com água salgada.

A vida o traíra. Nunca soubera o verdadeiro sentido das coisas. O fracasso lhe subira a cabeça, não havia mais volta, agora era só esperar pelos dias de descanso eterno, descanso este que tinha medo. Muito medo.
Não queria ser consumido por ratos e baratas. Não queria estar preso em moldes. Não queria virar ossada.
Até sua sombra havia mudado, estava corcunda, igual a ele. Estava menor. Estava velha. Teve a certeza que objetos inanimados também têm seu prazo de validade.
Seus amigos de asilo chegaram. Fim de reflexão. Era hora de se misturar a novas histórias e sofrimentos alheios que haviam chegado.